Conto – Virei Antipático pelo Simpático

‘’Odeio apresentar seminários’’. Com certeza, você já escutou essa frase de algum amigo ou mesmo a disse. Dentre os meus amigos, sou eu que a digo. Eles me dizem para ficar calma, respirar fundo, imaginar os outros com roupa de baixo, focar em uma pessoa, olhar para a parede no fundo da sala ou olhar só para o slide. Porém, como eu vou manter a calma se eu coração parece que vai sair pela boca? ‘’Isso é normal’’, todos dizem, mas, intimamente, eu amaldiçoo quem inventou essas apresentações. Se as pessoas sabem que ao ficarmos estressados temos esses diversos sintomas, por que inventar algo como os Seminários Escolares? Não faz sentido. Só existe uma coisa boa disso tudo: no inverno eu fico com menos frio. Às vezes, eu acho que tenho um vulcão dentro de mim, de tanto calor que eu sinto nessas apresentações. Porém, o suor nas mãos, o sentimento de alerta e as extremidades geladas do corpo não têm funções úteis tão visíveis. Exceto, é claro, se você estiver em uma situação de luta ou fuga. Nesse caso, tudo isso ajuda. Embora sejam mecanismos de defesa, a sensação de preocupação e o frio na barriga são simplesmente horríveis. Por isso eu detesto andar de montanha-russa. Não entendo como alguém pode ser viciado em emoções fortes. Para completar, meu cérebro faz uma seleção de imagens do que pode acontecer de errado antes, durante e depois da apresentação, tornando tudo pior e mais sacrificante. Nessas horas eu tenho dificuldade em acreditar que ele quer me ajudar invés de me boicotar, porque, embora digam que isso obriga a pessoa a ficar alerta e preparada para situações de perigo, acho difícil me concentrar no que vou falar se começo a imaginar o professor gritando ou todos rindo de mim. Graças ao sistema simpático, eu fiquei antipático, já que evito qualquer situação que me faça sentir a frequência cardíaca acelerada, respiração mais rápida, com frio na barriga e suando. Mas, ok… Eu assumo: tenho problemas de socialização. Isso se deve a uma aula no ensino fundamental em que a professora pediu para eu recitar uma poesia e eu não consegui. E para piorar, ainda fiz xixi nas calças. Conclusão, virei piada durante os próximos seis anos naquela escola. Acho que meu trauma só não foi maior, porque meu irmão entrou em Medicina e explicou-me os efeitos da fisiologia, assegurando-me de que eu não iria morrer e nem voltar a fazer xixi. Então, agora, apesar de ainda detestar essas apresentações em público, pelo menos passei a entender o que eu sinto e, a saber, que não vou morrer.

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