Conto – Machismo Enraizado

José era o típico trabalhador de classe média. Não bebia, não fumava e sempre tentava dar ao filho mais velho Pedro e à caçula Júlia, o que não tivera na infância. Contudo, sem perceber, ele e sua esposa Tânia, tratavam Pedro e Júlia de formas distintas. Enquanto o primogênito podia ir a festas e retornar tarde, ficar assistindo televisão e usar a roupa que quisesse; a caçula possuía horário de retorno, devia ajudar a mãe na cozinha, não poderia sair de casa usando uma roupa curta e nem muita maquiagem.

Na concepção deles, isso evitaria que Júlia sofresse abusos ao sair de casa. Logo, ao serem questionados devido a essa dicotomia de comportamentos, eles justificavam com a frase ”É para sua segurança. Uma mulher que se preze deve se portar dessa maneira”. Júlia e Pedro cresceram seguindo as regras, porém nenhum dos dois tinha noção do quão enraizadas elas se tornariam.

Após atingir a fase adulta, o primogênito tentou repetir o que aprendera em casa durante a infância, mas encontrou dificuldade em achar uma esposa que seguisse o modelo de sua mãe, ou seja, caseira, feminina, sempre à disposição e principalmente, tolerante com seus comportamentos. Seus namoros duravam no máximo dois meses, pois após esse período, todas as mulheres terminavam sob a justificativa de que não queriam um filho e sim, um parceiro.

Quando ouvia as queixas do filho, José pensava que era exagero e sugeria-lhe que procurasse em locais mais respeitáveis, como na igreja. Pedro assentia com a cabeça sem questionar e exaltava as qualidades de dona Tânia, afirmando que mulheres como ela eram perfeitas. Júlia, por outro lado, casara cedo e seguia todos os conselhos da mãe, a qual dissera que ela deveria casar ao completar 22 anos e engravidar após o primeiro ano de casada.

José e Tânia nem questionaram o que a filha sentia ao escutarem sobre o pedido de noivado do mecânico do bairro. Também não se importaram quando a filha parou de usar roupas coloridas e adotou um estilo mais sóbrio, com cores pastéis e vestidos abaixo do joelho. Para ambos, aquilo era um sinal de que Júlia se tornara ”mãe de família”.

À medida que os anos passavam, o machismo se aprofundava naquela família. Até o neto de José repetia o discurso que aprendera com os demais familiares. Ninguém estava imune. Pedro conseguira casar com uma mulher mais jovem, vinda do interior, que fazia de tudo para agradá-lo, moldando-o ainda mais como um homem preconceituoso, mal educado, preguiçoso e grosso. Alguém que nunca ajudaria nos serviços domésticos por serem ”coisa de mulher” e nem ajudaria os filhos a realizarem as tarefas da escola.

Em uma tarde ensolarada, José, já aposentado, decidiu fazer uma visita à filha, já que a mesma faltara ao encontro familiar de sábado. Ele também pretendia convidar o neto para assistir ao jogo de futebol da cidade, mas ao ver o rosto de Júlia, sua mente não conseguiu se concentrar no convite. Seu olho direito possuía um enorme hematoma roxo e seu lábio superior continha um corte.

Questionada sobre o que havia acontecido, Júlia contou que seu marido ficou irritado após vê-la arrumada para ir ao cinema com duas amigas da igreja. Ela havia colocado um vestido azul, abaixo do joelho, porém para que pudessem tirar fotos, passara um pouco de maquiagem. Isso foi o gatilho para uma série de insultos e agressões, que causaram as marcas em seu rosto.

José não podia acreditar que aquilo acontecera com sua filha caçula e como um bom pai, sugeriu que ela terminasse o casamento para que não sofresse mais agressões. Porém, a resposta que ouviu foi estarrecedora. Júlia disse, calmamente, ”Não vou me separar dele, pai. Meu marido tinha razão em agir daquela forma. Eu estava me arriscando se saísse com aquela maquiagem. Ele só quer o meu bem-estar, assim como o senhor e a mamãe queriam quando eu era jovem. Em breve os hematomas sairão e tudo isso será esquecido. De qualquer maneira, isso foi minha culpa”.

Vendo que não podia fazê-la mudar de ideia, seu José se despediu o mais rápido que pode. E naquela noite, quando todos já estavam dormindo, ele pediu a Deus que o perdoasse por ter ajudado o machismo a se enraizar em sua família.

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