Conto – Ao político preso da cela 274

Pai,

Desculpe-me pelo que vou te dizer nessa carta. Seu advogado pediu que eu testemunhasse a seu favor na audiência dá próxima semana, mas eu disse a ele que não o faria. Sei que você pode estar achando meu comportamento egoísta, porém, antes de tudo, eu tenho um dever com a minha consciência. Quando o senhor entrou para a política, eu lhe perguntei o porquê dessa decisão, já que nunca o ouvira falar nada que indicasse uma aspiração para cargos do governo. Você se lembra do que me disse? Suas palavras foram “quero tentar transformar a vida das pessoas”. Então, como o senhor pode desviar a verba destinada ao lanche daquelas pobres crianças?! Não, não quero brigar. Só estou cansado de ter que me esconder dos repórteres toda vez que eu e a mamãe saímos de casa, de servir de piada na minha turma de direito, de andar na rua e ver as pessoas cochichando, de assistir às reportagens na televisão sobre as pessoas afetadas pelo dinheiro que você desviou e principalmente, de saber que indiretamente eu fui cúmplice disso. Sempre soube que havia algo errado com o nível dos nossos gastos. Era impossível que somente com aquele salário, você fosse capaz de bancar tantas viagens, casas, festas e jantares. Contudo, toda vez que eu lhe questionava, você me comprava com um carro novo, viagens para mim e meus amigos… Sou consciente da minha parcela de culpa nessa história e isso está me consumindo. Não consigo mais pensar em outra coisa e a única forma que eu posso evitar que isso aconteça de novo, é negando-me a testemunhar a seu favor. Sei que a estadia na cadeia será difícil, mas, pai, você precisa reconhecer que errou e sofrer as consequências de suas ações. Mamãe ficará bem. Ela é mais forte do que eu e você pensamos. Sempre foi e sempre será. E eu realmente espero que após cumprir sua pena na prisão, você mude sua concepção de fidelidade e dê mais valor a ela. Ligações não substituem companhia e presentes não substituem fidelidade. Além disso, só queria que o senhor soubesse que nós temos conhecimento da existência de todas elas, Meg, Ana, Alice, Laura e Carla. Pai, você não achava que podia levar suas amantes para o gabinete e para o clube de golfe sem que soubéssemos, certo? Se existe algo que eu tenha aprendido com a política é que seus amigos confundem-se com seus inimigos. Um amigo verdadeiro jamais apoiaria o senhor a colocar em risco sua integridade, sua família e sua liberdade por dinheiro. O que você tem, pai, é, na verdade, um grupo de sanguessugas interessados em se beneficiar financeiramente e infelizmente, você se deixou contaminar pelas ideias mirabolantes deles. Eu gostaria de poder voltar ao tempo em que você ainda pensava como um empresário do ramo de construções. Não havia chantagens, compra de votos, troca de favores e nada daquilo que ambos sabemos que o senhor teve que fazer para ganhar e conseguir manter-se no cargo. Compreendo se depois disso, o senhor não quiser mais falar comigo. E também não espero nada em troca. Vou largar a faculdade e recomeçar minha vida longe daqui. Distante de tudo e de todos. Pretendo arranjar um emprego e depois, com o dinheiro do meu trabalho, voltar aos estudos e reconstruir minha vida. Se um dia o senhor reconhecer o seu erro e quiser conversar comigo, estarei disposto a ouvi-lo. Caso contrário, desejo toda a sorte do mundo, porém, peço que, por favor, não me procure mais. Não pense que eu, a mamãe e aquelas crianças fomos os únicos que o senhor decepcionou com as suas ações. Atos como aquele decepcionaram todas as 4.374.982 pessoas que votaram no senhor para governar o estado. Então, de agora em diante, tentarei me desvencilhar do sobrenome Tanner e de tudo o que ele significou às crianças do colégio Santana. Adeus.

Desejo-lhe sorte,

Felipe Rodolfo Tanner

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